segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

PALAVRAS COMO CORPOS

A bordo do trem Euromed chegando a Barcelona inicio esta série de escrituras as quais porventura interessarão a alguém. Felizmente não há nenhuma criança no meu vagão, o que é raro e me oferece uma mínima tranqüilidade para poder ater-me a isso. Chega a ser interessante a dificuldade que um encontra nos dias de hoje em escrever, tendo em vista a facilidade para tal. Qualquer semi-analfabeto possui um computador pessoal com o qual pode aventurar-se no mundo das letras, mundo usurpado diariamente por milhões de “internautas” que a cada minuto dilapidam qualquer que seja a língua na qual se expressem. E isso não é uma exclusividade das novas gerações criadas desde a cuna em frente a essa "nova" tecnologia, mas é também patente em qualquer geração de qualquer país e qualquer nível social à qual eu tenha algum contato. E dentro de tudo, acho menos perturbadoras as mensagens de texto por celular ou internet nessa neolinguagem abreviada e onomatopéica do que a insistência de pessoas com boa formação em escrever emails em linguagem rebuscada sem saber como fazê-lo. Realmente parece que a leitura está se convertendo em luxo, e mesmo os que lêem algo ao longo do ano o fazem simplesmente como uma distração a mais, sem aprender nada com isso, sem notar as nuances da linguagem bem escrita e esquecendo até mesmo o conteúdo ao cabo de alguns meses. Assim como os livros, o cinema, e qualquer outra arte em nossa massificada sociedade de consumo acabam sendo infravalorados exatamente pelo fato de serem considerados como puro entretenimento, como algo para passar o tempo, para nao-pensar, o contrario de qualquer obra-de-arte autêntica, algo que ajude a que essa dolorosa experiência de existir passe despercebida, rápida, sem questionamento, como esse riso bobo que abunda na cara de qualquer um frente às idiotices que imperam nas principais fontes de atenção dos nossos tempos, televisão e internet. A única coisa valorada nesses tempos é o ter, como se isso solucionasse todos os problemas. Seria uma contradição pensar que frente à democratização do conhecimento que supõe a rede global estamos frente a uma época de dominação intelectual funesta, porem isso fica claro no momento em que se tenta argumentar ou discutir com qualquer pessoa. As verdades são absolutas, todo mundo sabe tudo, qualquer assunto é de conhecimento geral, todo mundo sabe como organizar a economia mundial, como diagnosticar uma doença, como curá-la, como desenhar uma casa, como projetar um bairro, como fazer um logotipo, uma identidade corporal, como governar um país, um estado, uma cidade, um bairro, ser síndico do prédio ou porteiro. Todo mundo adora opinar, hoje em dia isso parece uma obrigação. “Não sei” virou sinal de fraqueza. Estamos nos convertendo todos naquelas velhas viúvas que não tem mais nada o que fazer senão meter-se na vida de todo o bairro, hoje em dia convertidos nas famosas redes sociais que proliferam pela internet. E, diferente do que muitos podem imaginar agora, sim, eu me incluo dentro dessa massa, sim, eu participo de uma dessas redes, eu leio tudo o que se passa e assim sendo, também vou opinar sobre tudo o que me pareça digno disso. Adorarei discutir com os que se oponham a qualquer opinião postada e assumo integralmente a responsabilidade por qualquer comentário ofensivo ou de mau gosto, deixando claro desde já que o politicamente correto não está entre os meus princípios.